Uma pincelada de saudade

O site “Brechó de ideias”, é uma homenagem a todos os que de alguma forma contribuem para a transmissão do conhecimento. Seja em volta de uma mesa, ao redor da fogueira, mais comumente hoje no sofá da sala. Os bisavós, avós e pais que na sua missão de educar transmitem aos seus a maior de todas as heranças: o ensinamento. Lembro-me da minha infância, quando as avós ou até bisavós (lembro-me vagamente dela) nos ensinavam carinhosamente a ciência das coisas simples. O aconchego do colo macio, a paciência, a calma e a segurança que nos transmitiam, eram o porto seguro quando uma bronca estava a caminho. As nossas avós ainda tinham tempo para fazer um bolo fresquinho para o café da manhã, a massa para o macarrão e começavam a cozinhar o jantar às 4 da tarde. As férias na casa dos avós eram esperadas ansiosamente…

A descendência de italianos por parte de pai, me trouxe muito conhecimento, já na infância. A família veio fugindo da guerra e com todas as dificuldades deste período, a palavra mais usada era ECONOMIZAR. Tudo era feito com muita economia e não havia desperdício. A minha avó tinha filhos em S. Paulo que possuíam uma malharia. Quando eles vinham visitar os pais, traziam sacos de retalhos de malha coloridos. A minha avó nos chamava para ajudar a desmanchar, e ficávamos sentados no chão desfiando, emendando os fios e fazendo pequenas bolas de lã que era para o fio ficar bem esticadinho. Depois com uma agulha de crochê feita de uma varinha de bambu que ela mesma preparava, tecia pequenos quadradinhos em crochê com pontos altos. Em seguida esses quadradinhos eram emendados e formavam uma linda colcha que seria destinada a alguém da família ou para uso próprio. Só muito mais tarde eu fiquei sabendo que se poderia comprar uma agulha de crochê de metal. Na minha ignorância de criança, tinha em mente que toda as agulhas eram feitas somente de bambu! Lindas lembranças! Na casa dos meus avós paternos, que eram os italianos, quase tudo era feito em casa: o café era torrado e moído em casa, criávamos galinhas, patos, perus, coelhos, cabritos e tinha uma pequena horta onde se plantava cenoura, couve, cheiro verde, e algumas ervas para fazer chá. Eu me lembro de que eu e meus irmãos, gostávamos de comer cenoura novinha. Tirávamos a plantinha da terra, arrancávamos as folhinhas, comíamos a raizinha rosada e doce e, para que ninguém descobrisse, colocávamos as folhinhas de volta na terra… Após alguns dias as folhas estavam murchas e a bronca vinha com certeza!

O meu avô materno era holandês e minha avó era brasileira. O meu avô era maquinista de trem “Maria Fumaça” na Rede Ferroviária – RFFSA – no Paraná. Em uma família numerosa com muitos filhos, 11 no total, onde só o pai trabalhava tudo era muito bem com trolado. Lembro-me que minha avó apanhava as camisetas e meias de algodão que não se usava mais e as cortava de forma continua, de maneira a formar um longo fio que era enrolado formando uma bola. Com esse fio eram feitos tapetes para a casa. Normalmente tinham forma oval, mas também vi quadrados e redondos. Para brincar fazíamos pequenos móveis com caixinhas de fósforos vazias embrulhadas em papel de presente sofás, armários, camas e os palitos já usados serviam de pernas para as mesinhas. Todo esse ensinamento era de forma lúdica, nas férias e com muito carinho. Acompanhado às vezes de bolinhos de chuva, sequilhos e limonada. A minha avó italiana costumava contar histórias da “sua Itália” enquanto desmanchávamos os retalhinhos de lã e quando precisávamos parar, pedia a ela que continuasse no dia seguinte. Enquanto ela falava, eu ficava imaginando como seria a “sua Itália”

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